Leonardo Boff comenta sua opinião sobre o fundamentalismo

 

 

 

Início de ano e trago mais uma matéria da série Recordar é Viver. Trata-se de um pequeno depoimento do teólogo catarinense Leonardo Boff, que já escreveu mais de 60 livros nas áreas de teologia, espiritualidade, filosofia, antropologia. Grande parte de sua obra está traduzida em vários idiomas. Esta entrevista foi realizada durante a XI Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro, em 2003. Mas nãose assuste, as respostas são bastante atuais, sobre um tema que infelizmente continua atual no mundo.

 

Ainda vemos muitos focos de fundamentalismo no mundo. Qual a sua opinião sobre isso?

Leonardo Boff: O fundamentalismo é uma doença das religiões, da política, das escolas econômicas… Porque fundamentalismo não é uma doutrina, é uma maneira de se ver as doutrinas. Quando alguém acha que uma doutrina (seja em arte, economia ou religião) é a única verdadeira, essa pessoa está condenada ao fundamentalismo, ao fanatismo e ao radicalismo. Hoje há o fundamentalismo do mercado, que é uma forma de organizar a economia; fundamentalismo neo-liberal, que considera que a única forma de organizar a sociedade é por um tipo de democracia ocidental e há o fundamentalismo religioso, seja nos setores mais importantes da Igreja Católica, seja nos muçulmanos, que usam a religião para fins políticos. São países importantes para a economia mundial, pois são países produtores de petróleo, que é o sangue da indústria e são países que não são considerados para nada. A cultura desses países não é inserida para plasmar a globalização. São nações que se sentem atropeladas e marginalizadas e a religião confere identidade a eles, dá sentido de luta e a partir desta amargura, desta decepção que eles têm com o ocidente, fazem da religião uma força de auto-ajuda e de agressão aos outros. 

 

Qual a sua relação com a Igreja Católica?

Leonardo Boff: Eu sou membro da Igreja Católica, fui padre da Igreja Católica, deixei o Ministério, mas continuo na Igreja, como teólogo. Eu acompanho comunidades, assessorando grupos de base, etc…

 

Você está lançando um livro chamado “A experiência de Deus”. Conte um pouco sobre este livro:

Leonardo Boff: Este livro procura captar aquela experiência que é anterior às religiões. As religiões se constroem sobre um encontro, sobre a experiência do sagrado, a experiência de Deus. Ao traduzir esta experiência aparecem as doutrinas, os códigos éticos, as liturgias e os dogmas, mas o que está por debaixo de todas as religiões é esta realidade da experiência e esta experiência emerge de Deus não como uma coisa construída, mas como um acontecimento, uma epifania de Deus, a transparência de Deus em todas as coisas. Então eu acho importante hoje com a reflexão sobre a experiência de Deus para que possamos pensar sobre as religiões e mostrar o ponto em comum que todas tem: todas elas se referem ã experiência de Deus.Todas elas estão juntas e isso permite uma base comum para o diálogo e para o ecumenismo.

 

Fale um pouco sobre o problema da violência:

Leonardo Boff: O grande problema da violência é que nas favelas, grande parte das pessoas adultas estão desempregadas e os jovens não têm nenhuma oportunidade de trabalho, educação, não têm esperança na vida porque a sociedade não oferece nada a eles, mas o narcotráfico oferece. Oferece trabalho, oferece cesta básica… então eu acho que a única maneira de enfrentarmos o problema de forma eficaz é criarmos condições para que as pessoas pudessem trabalhar, que os jovens pudessem estudar, encontrar emprego, porque isso daria sentido à vida. Eles ganhariam o sustento e não precisariam ir para a droga. 

 

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