Nahum Sirotsky: Mundo ignora globalização e crise piora

Relendo Heidegger, um dos maiores filósofos do século passado, encontrei uma frase perfeita para os nossos dias. Cito em inglês, pois receio não conseguir versão satisfatória do que ele escreveu – cuja verdade ninguém pode negar: “the most provoking thing in our thought-provoking time is that we are still not thinking” (o maior desafio dos nossos tempos que tanto estimulam a pensar é que ainda não estamos pensando). Não me considero capacitado a traduzi-lo, mas espero ter transmitido o espírito do que ele escreveu. A crise e as soluções a ela aplicadas parecem confirmá-lo.

Como todo indivíduo preocupado com as confusões atuais, me surpreendem alguns lapsos do óbvio. Ou será que inventaram palavras para justificar bons negócios e vivemos uma grande mentira por anos? Não houve a globalização e o aprofundamento da interdependência? Houve sim e é possível comprovar.

Qualquer leitor sabe, por exemplo, que não existem fábricas de automóveis, existem montadoras que juntam peças compradas em centenas de fabricantes espalhados pelo mundo. Este PC é uma montagem. O mercado foi mundializado. Transferir empresas e empreendimentos do próprio país para outros e importar o produto para vendê-lo no mercado interno é o comum. Os meios de transporte, os meios de comunicação transformaram tudo.

O país que se diz autosuficiente é subdesenvolvido e pobre. A crise é a grande prova da internacionalização do sistema financeiro. Os bancos são, na prática, instituições vinculadas por negócios e associadas em investimentos.

Acabaram-se os tempos de soluções nacionais. Imagino que as lideranças mundiais estejam conscientes de tais simples realidades, mas elas dão a impressão de que não pensam o suficiente. A crise demonstra que se estava vivendo a ilusão de que a globalização e a interdependência eram o contexto para bons negócios. Não se preparou coisa alguma para as conseqüências não visadas nem desejadas.

Pensou-se em regras e normas para facilitarem bons negócios. Liberdade de comerciar, garantias para os investimentos estrangeiros, facilidade e imediatismo na transferência de dinheiros, um mundo aberto a intercâmbio tão lucrativo quanto possível.

Bolsas de valores operando 24 horas por dia, fortunas fantásticas foram criadas em pouco tempo. O mundo tornou-se mais desigual do que nunca, mas se esqueceu que tudo isto se fazia apoiado nas centenas de milhões de indivíduos que eram a máquina produtiva e consumidora. Não faltaram teorias profetizando que se descobrira o segredo do Eldorado.

Texto de Nahum Sirotsky. Leia matéria completa no IG.

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