Relendo Heidegger, um dos maiores filósofos do século passado, encontrei uma frase perfeita para os nossos dias. Cito em inglês, pois receio não conseguir versão satisfatória do que ele escreveu – cuja verdade ninguém pode negar: “the most provoking thing in our thought-provoking time is that we are still not thinking” (o maior desafio dos nossos tempos que tanto estimulam a pensar é que ainda não estamos pensando). Não me considero capacitado a traduzi-lo, mas espero ter transmitido o espírito do que ele escreveu. A crise e as soluções a ela aplicadas parecem confirmá-lo.
Como todo indivíduo preocupado com as confusões atuais, me surpreendem alguns lapsos do óbvio. Ou será que inventaram palavras para justificar bons negócios e vivemos uma grande mentira por anos? Não houve a globalização e o aprofundamento da interdependência? Houve sim e é possível comprovar.
Qualquer leitor sabe, por exemplo, que não existem fábricas de automóveis, existem montadoras que juntam peças compradas em centenas de fabricantes espalhados pelo mundo. Este PC é uma montagem. O mercado foi mundializado. Transferir empresas e empreendimentos do próprio país para outros e importar o produto para vendê-lo no mercado interno é o comum. Os meios de transporte, os meios de comunicação transformaram tudo.
O país que se diz autosuficiente é subdesenvolvido e pobre. A crise é a grande prova da internacionalização do sistema financeiro. Os bancos são, na prática, instituições vinculadas por negócios e associadas em investimentos.
Acabaram-se os tempos de soluções nacionais. Imagino que as lideranças mundiais estejam conscientes de tais simples realidades, mas elas dão a impressão de que não pensam o suficiente. A crise demonstra que se estava vivendo a ilusão de que a globalização e a interdependência eram o contexto para bons negócios. Não se preparou coisa alguma para as conseqüências não visadas nem desejadas.
Pensou-se em regras e normas para facilitarem bons negócios. Liberdade de comerciar, garantias para os investimentos estrangeiros, facilidade e imediatismo na transferência de dinheiros, um mundo aberto a intercâmbio tão lucrativo quanto possível.
Bolsas de valores operando 24 horas por dia, fortunas fantásticas foram criadas em pouco tempo. O mundo tornou-se mais desigual do que nunca, mas se esqueceu que tudo isto se fazia apoiado nas centenas de milhões de indivíduos que eram a máquina produtiva e consumidora. Não faltaram teorias profetizando que se descobrira o segredo do Eldorado.
Texto de Nahum Sirotsky. Leia matéria completa no IG.