Sobre a globalização, a democratização da informação e o papel do bibliotecário

Sobre a globalização, a democratização da informação e o papel do bibliotecário

Rosabeth Moss Kanther define a globalização como um shopping mundial, onde idéias e produtos são vendidos a qualquer hora e em qualquer lugar. Já Marthin Khor diz que globalização é o que o terceiro mundo vem chamando de colonização ao longo dos séculos.

Porém, não devemos nos prenderemos às definições do termo, visto que não é o objetivo do trabalho e que sabemos que na prática o que acontece é o que Philippe Quéau chama de “glocalização”, ou seja, a globalização representa um advento que infelizmente não traz lucro a todos, mas apenas a um seleto grupo de ricos num universo de uma imensa maioria pobre.

Neste contexto, ocorre um grande avanço das telecomunicações. Surge a Internet e a informação assume um valor altíssimo e passa a ocorre o fenômeno que chamamos Sociedade da Informação.

Sabemos que esta é um fato indiscutível, tendo em vista que a velocidade na disseminação da informação passou a desempenhar um papel fundamental na economia globalizada. Sem sua difusão instantânea, não seria possível mobilizar os fluxos financeiros que se deslocam entre vários países ou tomar decisões transnacionais no âmbito da administração empresarial, sobre criação e fragmentação de conglomerados ou sobre políticas de contratação e demissão de mão de obra, que se constituem na essência da economia neste contexto do mundo globalizado.

Na chamada Sociedade da informação, quem não possui acesso às novas tecnologias (tanto pessoa física quanto jurídica) está rigorosamente fora do mercado e conseqüentemente atrasado em relação aos demais. O ideal seria que todos pudessem ter acesso às novas possibilidades tecnológicas, mas como isso se trata de um sonho um pouco distante, a Sociedade da Informação é um pouco “cruel” com alguns setores da sociedade, na medida que não é desfrutada por todos.

Olhando por este lado, é possível então comparar a Sociedade da Informação à utopia comunista. No ponto em que estamos, o avanço das tecnologias da informação apenas agrava e aumenta as diferenças sociais já existentes, na medida em que apenas uma pequena parte da população têm acesso aos novos adventos.

Falando especificamente no Brasil, ano passado o Governo Federal, através do Ministro de Estado das Telecomunicações Pimenta da Veiga, teve bastante orgulho em divulgar seu programa de “universalização da informação”.

Segundo dados do próprio Governo Federal, em dois anos o número de telefones celulares no Brasil passou de oitocentos mil para vinte e quatro milhões. Já na telefonia fixa, o país pulou de treze milhões para quarenta milhões de linhas. Não há controvérsias de que é positivo o fato de localidades como o município de são Gabriel da Cachoeira ou a Aldeia dos Índios Wai-Wai terem suas linhas telefônicas, mas até que ponto fatos como estes podem representar a universalização da informação?

Vale lembrar, que tais avanços na telefonia só foram conseguidos após a privatização dos serviços e a instalação de multinacionais controlando a telefonia local, de todo o lucro obtido pelas “teles”, a maior parte vai para fora do Brasil, o Estado deixou de controlar o setor e o dinheiro das privatizações ninguém sabe onde foi parar. O crescimento das linhas telefônicas só ocorreu porque havia um grande interesse financeiro por trás.

Falando de Internet, hoje em dia, o indivíduo que possui um computador conectado à Internet em sua casa obviamente já tem uma condição de vida razoável e se considerarmos que a Internet traz informação e oportunidades ao s que se utilizam deste recurso, o indivíduo pobre, que não têm acesso à Internet continua em desvantagem.

E neste sentido não funcionam as iniciativas de se criar provedores gratuitos, pois mesmo não pagando o provedor, o indivíduo pobre não poderia pagar os pulsos telefônicos. E mesmo se não pagar a chamada telefônica, não poderia pagar a conta de luz. E mesmo se pudesse, de onde tiraria dinheiro para comprar um computador? Chega a ser hipócrita o fato de chamar certos programas ou atitudes de democratização da informação, onde o que acontece na verdade é o que costumo chamar de “demo–informação democrática”.

Demo-Informação porque para as camadas mais pobres da população onde é oferecida não a democratização da informação, mas apenas uma demonstração dos benefícios que as tecnologias da informação podem trazer, mesmo estes benefícios estando muito longe de chegar a esta camada da população.

E democrática porque de certa forma chega a uma boa camada da população. Bem ou mal, algumas bibliotecas públicas, agências dos correios, Ong´s, e escolas públicas oferecem acesso gratuito á Internet para membros da comunidade, porém não podemos chamar isso de democratização da informação, pois como foi citado, oferece apenas uma demonstração do que as novas tecnologias podem proporcionar.

Num momento em que ainda se continua a morrer de fome no Brasil, com milhões de analfabetos e com o descaso para com as políticas educacionais chega a ser uma piada falar em democratização da informação. Mas qual seria o papel do bibliotecário neste contexto? É óbvio que não cabe ao bibliotecário erradicar a fome no mundo ou acabar com a violência nas grandes cidades. Porém, cabe á ele um papel importante para contribuir para a atenuação dos problemas citados.

Sendo a informação, a mola-mestre do processo de globalização, um indivíduo bem informado, obviamente terá menos chances de ser explorado do que aquele que não têm acesso à informação. Diante disso é necessário repensar o papel do bibliotecário diante de um contexto de grandes desigualdades sociais, com o avanço das tecnologias agravando ainda mais o caso. Como profissional da informação, cabe ao bibliotecário refletir, descobrir e executar sua função social no mundo globalizado.

O PAPEL DO BIBLIOTECÁRIO

Num país onde infelizmente temos que conviver com estatísticas deprimentes no que diz respeito às questões sociais e onde milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, é necessário que todos os setores da sociedade se unam em prol de buscar soluções para os graves problemas sócio-econômicos que nos afligem.

E uma vez entendendo que toda a sociedade não deve medir esforços para mudar esta realidade, os profissionais da informação não podem se excluir deste processo, mas sim abraçá-lo e dar também a sua contribuição para a construção de um mundo melhor. Assim sendo, entende-se que o bibliotecário como profissional da informação não pode se resumir a um mero guardador de livros, mas deve sim um profissional que atua diretamente na construção do conhecimento, na medida que seu material de trabalho é a informação, fator indispensável na construção do conhecimento .

O bibliotecário tem hoje uma atuação muito tímida nas transformações da sociedade. Infelizmente, o bibliotecário atual ainda é um profissional estático e que não tem consciência de papel social. Aliás, vale dizer que muitos bibliotecários não têm sequer consciência do seu papel profissional, na medida que por incrível que pareça, muitos ainda acham que seu campo de atuação se resume apenas aos livros e às bibliotecas.

Este fato é visível em qualquer biblioteca, onde se pode facilmente concluir ao mínimo contato com os bibliotecários, que boa parte deles se enquadram neste perfil errôneo e simplista da profissão. Para entender o porquê desta situação, vamos tomar como exemplo o caso da nossa Universidade.

Analisando o caso específico da Universidade Federal Fluminense, é evidente que a grande maioria dos alunos não entrou no curso de graduação em Biblioteconomia por vocação ou por conhecer a área, mas sim por outros fatores, como a relação candidato-vaga, que é relativamente baixa, quando comparada aos outros cursos de graduação.

Isto, sem contar as péssimas condições do Instituto de Arte e Comunicação Social, a falta de computadores e a falta de apoio da Universidade ao Departamento de Ciência da Informação. Outro problema do curso é a ausência de um Diretório Acadêmico atuante e de outras atividades realizadas por alunos no sentido de auxiliar no desenvolvimento acadêmico dos graduandos e promover reflexões como as apresentadas na disciplina Tópicos IV.

Todos estes fatores citados representam indícios e possibilidades reais de contribuição para a formação de um profissional não-reflexivo. Um aluno que já entra desestimulado e encontra um curso desestimulador não pode se empolgar com sua área e conseqüentemente não vai se interessar em conhecer as reais possibilidades de seu campo de atuação, mas sim se preocupar em “arrumar um bom empreguinho” e só.

O caso específico da UFF ilustra bem um caso que possivelmente também ocorre em outras Universidades. Mas de certa forma, por aqui isto já vêm mudando um pouco, bastante devagar, é verdade; mas já é possível por exemplo observar diferenças entre os alunos de biblioteconomia formados há alguns anos atrás na UFF e o que estão se formando agora.

É preciso primeiramente que o bibliotecário se orgulhe de sua profissão, a partir daí, uma segunda etapa seria a reflexão sobre as possibilidades e o papel social da área, o de contribuir para a amenização dos problemas sociais, exercendo ativamente seu papel de disseminador da informação. Reside aí o papel do bibliotecário perante a sociedade atual. Segundo a CBO 2002, os bibliotecários são profissionais que:

Disponibilizam informação em qualquer suporte; gerenciam unidades como bibliotecas, centros de documentação, centros de informação e correlatos, além de redes e sistemas de informação. Tratam tecnicamente e desenvolvem recursos informacionais; disseminam informação com o objetivo de facilitar o acesso e geração do conhecimento; desenvolvem estudos e pesquisas; realizam difusão cultural; desenvolvem ações educativas. Podem prestar serviços de assessoria e consultoria. (CBO 2002 – Cd Rom)

Primeiramente, a CBO diz que cabe ao bibliotecário disponibilizar informação emqualquer suporte e não apenas em livro. Outra passagem interessante é a que atribui ao bibliotecário o papel de disseminar informação e facilitar o acesso a geração do conhecimento.

Está claro agora aquele ”papel de agente de transformação social” que foi citado anteriormente. O bibliotecário deve pensar e executar ações como a desenvolvida pelo grupo formador da Ciranda, no intuito de criar alternativas para driblar a exclusão digital.

O projeto Ciranda (Comunidade de Informação, Inclusão Digital e Social) consiste na criação de uma ONG que visa a construção de projetos de implantação de centros de informática nas comunidades, com computadores conectados à Internet para que a população tenha uma possibilidade de aproveitar alguns dos recursos oferecidos por este advento.

Os bibliotecários devem na medida do possível pensar em iniciativas como esta e pensar como se pode aplicar esta filosofia para disseminar ao máximo as informações disponíveis em seu ambiente de trabalho.

Novamente citando a UFF, na Biblioteca Central do Gragoatá na época da realizaçãod este trabalho, colocaram um computador com acesso à internet para que o usuário pudesse fazer pesquisas. Porém, não se podia acessar e-mails. No caso do autor deste trabalho, que não possuia computador em casa, não seria possível fazer pesquisas referentes à disciplina Tópicos IV, por que para tal precisaria acessar o grupo de discussão por e-mail e e-mail não era permitido.

Em contra-partida, haviam pessoas “trabalhando” em outros computadores que não são disponíveis ao usuário que em hora de serviço e à vista de todos os usuários acessam e-mails pessoais, charges, piadas, etc… E o autor deste texto não pôde acessar o seu e-mail para ler mensagens da disciplina. Algo está errado…

Não se trata de um bicho de sete cabeças, mas se trata de utilizar da melhor maneira possível, os meios que se possui para disseminar o a informação e gerar conhecimento. Por muito tempo, o bibliotecário pensa apenas em guardar e organizar a informação, mas isso só não basta. Como dizia Ranganathan, “os livros são para serem usados”. Além de organizar a informaçâo, cabe ao bibliotecário disseminá-la e cuidar para que esta encontre um destino, como diria Ranganathan: “A cada leitor o seu livro….”

Outro ponto interessante citado pela CBO é a de reconhecer que é também papel do bibliotecário desenvolver ações educativas. Logo, a CBO acertadamente reconhece que o Bibliotecário possui também um papel de educador, na medida em que é um disseminador de informações. Infelizmente, os bibliotecários ainda não se deram conta disso e não costumam se interessar em trabalhar em bibliotecas escolares, que na ausência de bibliotecários formados, utilizam professores de nível médio para gerenciarem o acervo.

Se um fator que pode contribuir para a diminuição dos quadros sociais negativos é facilitar o acesso à informação, outro fator fundamantal é a educação. Grande parte das escolas e faculdades públicas encontram-se sucateadas e muitos estabelecimentos particulares também não são “grande coisa”. Um novo modelo de escolas deveria ser implantado, com professores trabalhando em conjunto com os bibliotecários para executar eventos culturais, atividades de incentivo à leitura, auxílio à complementação da teoria mostrada em sala de aula através do uso das novas tecnologias, etc…

Este trabalho não propõe algo surreal, utópico mas apenas que haja uma reflexão por parte do bibliotecário no contexto onde este se encontra, de modo que haja um total aproveitamento das possibilidades de sua Biblioteca ou Centro de Informação. A grande problemática consiste em pensar melhor em utilizar as ferramentas que já se possui e isto não é tão complicado e por si só representa um bom começo. A partir daí, podemos estabelecer novos horizontes, para que o bibliotecário possa “se encontrar socialmente” e desenvolver seu papel perante à sociedade: tratar e disseminar a informação em qualquer suporte.

CONCLUSÃO

A globalização mundial aproxima os países, na medida em que forma a chamada “aldeia global”. Neste contexto, a informação ganha peso de ouro e passa-se a chamar o período atual de Sociedade da Informação.

Infelizmente, há ainda muitos problemas sociais que no modelo de globalização adotado pelo mundo estão apenas se agravando, na medida em que a informação ganha peso de ouro e a maioria da população não têm acesso a ela.

Cabe ao bibliotecário assumir seu papel social de disseminador da informação e localizar-se neste contexto de modo que possa através de suas ações contribuir para a diminuição da exclusão informacional e do apartheid digital.

Compartilhe:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Google Bookmarks
  • email
  • Propeller
  • Rec6
  • Facebook
  • MSN Reporter
  • MySpace
  • PDF
  • Twitter
  • Yahoo! Bookmarks

Sobre o autor