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Entrevista: Cláudio Ramos, o ator de 1 tonelada de batatas!

Postado por Leonardo Salo | October 14, 2007

Cláudio Ramos completou 20 anos de uma bem sucedida carreira teatral. As comemorações desta marca incluíram duas temporadas de sucesso em Niterói, em Agosto de 2007, com as peças “Criança Tem Cada Uma” e “Lugar de Mulher”.

“O teatro tem o dom de sensibilizar e tudo o que sensibiliza educa!”

Cláudio Ramos

Leonardo Melo: O que você pensa sobre as carteiras de estudante falsificadas?

Cláudio Ramos: Tudo o que é ilegal, eu não acho legal. Você não pode burlar… A gente já dá 1/2 entrada pro estudante ou pra quem tem mais de 60 anos. A coisa é tão difícil pra quem faz teatro e então você ainda falsificar carteirinha, aí fica complicado pra gente, entendeu? Eu não me importo de dar 1/2 entrada, de ter uma platéia inteira formada por pessoas que pagaram 1/2. Mas isso desde que sejam realmente idosos ou estudantes.

Leonardo Melo: É complicado fazer teatro infantil? Qual a diferença em relação ao teatro adulto?

Cláudio Ramos: A primeira impressão é a que fica. Você tem que ter um cuidado muito grande com o público infantil, porque este é um público “formador de platéia”. A gente tem que fazer com que a criança ame o teatro e não que odeie o teatro. Só que existem certas produções por aí (que não posso citar o nome por questões éticas), em que penduram qualquer pedaço de papel ali e pronto. Fazem tudo de qualquer jeito. Eles vão fazendo a criança de bobo. É um teatro infantilóide. Isso vai gerar uma criança que odeia teatro. A gente tem que respeitar o público desde pequeno.

Leonardo Melo: Qual sua principal preocupação ao realizar um espetáculo infantil?

Cláudio Ramos: A minha preocupação com o teatro infantil, tanto na peça Criança Tem Cada Uma, quanto na peça Sopa de Letrinhas foi a de escrever na ótica de uma criança. Só que você tem que ter todo um cuidado, porque quem assiste é a criança, mas quem divulga é o adulto. No teatro infantil, você tem que ter o ecletismo de agradar a criança e o adulto ao mesmo tempo. As peças não podem ser imbecis para o adulto, nem complicadas para as crianças.

Na peça Criança Tem Cada Uma, que apresentamos recentemente em Niterói, a gente via crianças de 2 e 3 anos ligadas no espetáculo. Ao mesmo tempo você tem crianças de 9, 10. Você tem também o adulto, tem a vovó… Todo mundo gosta, é uma linguagem universal. Você tem que ser direto e objetivo. Colocar esta peça no palco não é fácil, de tão simples ela se torna complicada.

Leonardo Melo: Em Criança Tem Cada Uma, muitas mães devem se identificar com a mãe da menina que espalhava os brinquedos…

Cláudio Ramos: Há uma identificação muito grande por parte de todas as mães, porque por menos estressada que a mãe seja, ela já passou por alguma situação de estar guardando os brinquedos que as crianças espalharam. Há que se tomar cuidado para não tirar a liberdade da criança no seu próprio quarto. Na peça Criança Tem Cada Uma, eu deixo claro que o cenário é o quarto da criança. Então, vamos deixar o quarto da criança bagunçado sim! Mas vamos ensinar para esta criança, que quando acabar de brincar ela tem que guardar. Só não se pode tirar a liberdade da criança em seu próprio quarto. Imagina só você não deixar uma criança brincar no seu quarto em uma manhã de chuva. Isso não pode…

Veja só: por que as crianças vivem socadas nos games? Porque jogando, ela está quietinha no canto dela, não suja, não faz bagunça… Pode reparar: os pais têm pouco tempo para os filhos pequenos e quando têm, eles querem trazer a criança para o mundo adulto. Isso é totalmente errado. Veja bem: uma criança de 7 anos chega pro pai e diz: “Olha que bonito, papai, o negócio que eu fiz na escola”. Daí o pai responde: “Ah, agora eu não posso, to assistindo o telejornal, depois você me mostra, agora estou ocupado…”

A criança fica o tempo todo querendo chamar a atenção do pai com coisas que pro adulto é bobagem, mas que pra elas têm um significado imenso. Aí, quando chega a adolescência, o pai reclama: “Ah, esse garoto não conversa comigo, ele não me conta nada” Mas por que isso acontece? Porque a criança ficou o tempo todo sendo repelida, os pais não têm tempo de valorizar os pequenos atos das crianças e depois, quando o filho cresce, eles querem cobrar dos filhos uma atitude que eles mesmos não tiveram . Isso está aí, não fui eu que inventei. Eu simplesmente tive a sensibilidade de observar isso e transportar para o palco sob a ótica de uma criança.

Leonardo Melo: Cláudio você está comemorando 20 anos de carreira, mas também está comemorando 1 tonelada de batatas, não é? Me conte esta história.

Cláudio Ramos: O espetáculo Lugar de Mulher estreou em Fevereiro de 1998. Já fiz temporadas em mais de 50 cidades. São 9 anos de espetáculo. Eu tenho uma personagem neste espetáculo, que descasca batatas e enquanto ela descasaca as batatas, ela descasca a vida dela. Então, eu acabo descascando 1 quilo de batatas por apresentação. Chegamos então à fantástica marca de 1 tonelada de batatas, porque já fizemos 1000 apresentações.

Leonardo Melo: Eu particularmente gosto bastante da simplicidade de suas peças. Penso que muitas vezes as pessoas tentam inventar muita coisa e acabam se perdendo. O que você pensa sobre a complexa questão do ser simples?

Cláudio Ramos: O que é simples é belo! Por exemplo, o cenário de “Criança tem cada uma” é um cenário bem cuidado, mas não é um cenário que custou R$ 50,000,00. Não foi essa fortuna toda. Você tem que ter um pouco de dinheiro? Sim, mas se não houver criatividade, não há dinheiro no mundo que faça a coisa ficar bonita. O cenário da peça Lugar de Mulher também é super simples, mas a importância está no texto. É como eu digo sempre, no teatro você tem que ter samba no pé, chegar no palco e dar conta do recado. Qual o maior poeta que este país já teve? Carlos Drummond de Andrade! A simplicidade das poesias dele é fantástica! E a Adélia Prado? Também é de uma simplicidade tão grande o que ela escreve… Não adianta você querer rebuscar demais, o que é simples é belo.

Leonardo Melo: Outra coisa que já observei em seus espetáculos é que você costuma cumprimentar o público no final das apresentações…

Cláudio Ramos: Desde o início da minha carreira eu não consigo fechar a cortina e ir para o camarim. Se eu fizer isso, para mim o espetáculo ainda não acabou. O espetáculo pra mim só acaba comigo lá fora, lá no saguão apertando a mão de cada um que quiser falar comigo. Agradeço a presença de todo mundo, sejam 30, 300 ou 3000.

Leonardo Melo: Qual sua relação com a literatura?

Cláudio Ramos: Na infância e na adolescência eu li muito, eu tenho as obras inteiras de Monteiro Lobato. Li várias vezes. Eu também eu li bastante Sidney Sheldon, Machado de Assis… Ah! Tem um livro do Autran Dourado chamado “A ópera dos Mortos”, é um livro que realmente me arrepia. Atualmente estou lendo “Marley e eu”, que é um livro delicioso de ler.

Leonardo Melo: Pra finalizar: como está na sua opinião o atual momento do teatro brasileiro?

Cláudio Ramos: Como diz a Fernanda Montenegro:

“tem público para tudo e para todos, desde que você faça um trabalho digno; um trabalho no qual você respeite o público”.

Mas se por um lado temos público, por outro lado, você tem que correr atrás deste público. Não é porque eu estou completando 20 anos de profissão que eu vou ficar em casa deitado vendo TV. Você tem que matar um leão a cada estréia e um leão a cada temporada. Mas vejo que o público de teatro aumentou muito. Por exemplo: Niterói é fantástico.

É muito bom ver o número de espectadores aumentando a cada ano. Antigamente você só tinha o Teatro da UFF. Depois, veio o Abel e foi um sucesso. Aí então, veio a reforma do Municipal, que deu mais aquele “boom”. Agora já tem a AMF… Antigamente as pessoas tinham que se deslocar para o Rio, agora elas já sabem que os espetáculos vêm para Niterói.

Mas voltando a falar em Brasil, de modo geral, penso que é um momento bastante rico em termos de aceitação do público, mas não é muito fácil não, você tem que conquistar e cativar esse público.

Cláudio Ramos na peça Lugar de Mulher - Foto: divulgação.

Cláudio Ramos em cena, na peça Lugar de Mulher.

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Post classificado na(s) categoria(s): Entrevistas, by SALO |

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3 comentários to “Entrevista: Cláudio Ramos, o ator de 1 tonelada de batatas!”

  1. Larissa Giotti Says:
    October 17th, 2007 at 10:45 pm

    Parabéns Cláudio Ramos!
    Fiquei muito felis em ter participado de sua peça “Criança tem cada uma!”,e adorei assistir a peça “Lugar de mulher”!(você é sensácional!)
    Um grande beijo,Larissa Giotti.

  2. Larissa Giotti Says:
    October 17th, 2007 at 10:51 pm

    Parabéns Cláudio Ramos!!!
    Fiquei muito feliz em ter participado de sua peça”Criança tem cada uma!”e adorei assistir “Lugar de mulher”!!!!(você é sensácional!)
    Um grande beijo,Larissa Giotti

  3. Regina Giotti Says:
    October 26th, 2007 at 1:44 pm

    Conheci Cláudio Ramos há poucos meses. Ele é incrível, tanto no palco como pessoalmente. Criar textos como ele, é ser uma pessoa sensível que consegue passar para o público uma emoção enorme. Parabéns pelo seu trabalho que é de muita seriedade.

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