Um bate papo com Júlio emílio Braz sobre as drogas
Postado por Leonardo Salo | October 16, 2003
O escritor mineiro Júlio Emílio Braz impressiona pela elevada coerência e pela grande identificação com os jovens e é portador de de uma inteligência invejável. Conversamos com ele por cerca de 20 minutos sobre algumas questões relacionadas às drogas. Esta entrevista foi realizada durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2003.
Os maiores erros cometidos pelos pais
Júlio Emílio Braz: Não ouvir; não deixar falar e achar que tem resposta para tudo. São os três erros básicos. E isso vale para todos os problemas, não apenas para a questão das drogas. Os pais não ouvem e quando vão falar jogam presentes, fingem que não estão ouvindo… Por exemplo: ano passado eu fui em uma escola e vi um pai brigando com a professora. “- Por que a senhora reprovou minha filha?” – Mas senhor, a sua filha não vem a escola a três meses… Ele não sabia de nada. Aonde esta menina estava enfiada?
Legalização das drogas
Júlio Emílio Braz: Legalizar não adianta. Veja um exemplo pratico: as cotas para negros na Universidade Pública. Todo “negão” vai feliz para a Universidade… Só que muitas vezes no segundo grau, ele não teve química, física, matemática, nem um bom ensino fundamental. Ele está ferrado. Vai fazer engenharia, medicina e não sabe nem o que e trigonometria. A auto-estima dele vai parar lá no dedão do pé. Não se constrói uma casa pelo teto. É de baixo para cima que tem que ser feito. Não adianta legalizar as drogas. Como isso seria feito? Vamos distribuir droga para todo mundo? Vamos fazer um ticket-droga? É muito complicado. Olha o tamanho do Brasil. Imagina um moralista de uma cidadezinha lá do interior do Mato Grosso do Sul. Chega pra ele e diz que o filho dele pode fumar maconha. No Brasil temos realidades muito distintas. No sul e tudo bonitinho, tem fila pra entrar na biblioteca. No nordeste não tem nem a biblioteca. Então você não pode achar que uma lei federal vai resolver o problema. Não vai, cada pedaço do Brasil tem o seu próprio problema.
O ativismo da banda Midnight Oil
Júlio Emílio Braz: Olha, é bonito, mas nem todo mundo faz isso. Aliás, é a cabeça daquele vocalista careca, o Peter Garret, ele é muito cabeça. As letras do Midnight Oil são letras conscientizadas, eles criticam a sociedade australiana. E há outras bandas que também tem um certo nível de consciência. Isso serve de exemplo para que os fãs do Midnight Oil, mostra que eles tem postura. E infelizmente estamos num mundo, onde as pessoas não têm postura, têm conveniências. Os membros do Midnight Oil passam a idéia de que pensam, que refletem. Uma banda, cujos atos tem que ser imitados.
A importância do livro e da biblioteca
Júlio Emílio Braz: O livro, o texto, a revista, o jornal… A biblioteca é um ótimo radiador do conhecimento e da discussão. Quando a pessoa lê, começa a refletir e a questionar. Se não há livros, não há questionamento algum… Eu acho que a biblioteca é fundamental. Se você quer mudar este país, o caminho é a educação. Tem que haver bibliotecas em todos os cantos. Aqui no Rio de Janeiro, eu moro num bairro onde a biblioteca é exatamente igual à época que eu tinha 14 anos e comecei a freqüentá-la. Hoje eu tenho 44. Então, ela já não pode suprir a demanda e para piorar as pessoas que lá trabalham não fazem nada para dinamizar a biblioteca. Eu acho que precisamos investir pesado na informação, com bibliotecas que contenham os livros que as pessoas querem ler. Você tem que ter a opção de ler Harry Potter, porque não adianta você dar um Dom Casmurro a quem não está acostumado nem a ler os gibis da Turma da Mônica. A biblioteca é fundamental, eu sou um defensor das bibliotecas…
Sobre Famílias com pais viciados em bebidas, mães em calmantes e filhos em maconha
Júlio Emílio Braz: Este tipo de família não tem como passar parâmetros éticos para ninguém, todo mundo usa drogas. Ou a família assume que todo mundo e usuário.Temos que repensar a família. Antigamente era tudo muito certinho, mas hoje temos famílias que são transgressoras, onde todos usam drogas… São famílias também, mas é um tipo de família que eu não gostaria de ter.
Mensagem final
Júlio Emílio Braz: Qualquer decisão que se toma na vida tem que ser muito bem pensada. Não posso determinar se você vai ou não usar drogas, mas se você for usar, que esta decisão seja feita depois de muito pensar. Não adianta você usar porque seu colega usa, pois a vida do seu colega e uma e a sua e outra. São universos distintos. Pense bem: seja para usar ou para não usar. Nunca tome uma decisão sem pensar na sua vida. Pense bem, leia muito. Tenha consciência do que está fazendo.
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