Entrevista sobre qualidade da informação
Postado por Leonardo Salo | April 20, 2007
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Ronaldo Ronan Oleto é Doutor em Ciência da Informação e nesta entrevista, fala sobre qualidade da informação, tema de sua tese de doutorado. |
Leonardo Melo (LM): Em primeiro lugar gostaria que falasse sobre os conceitos de informação e conhecimento. Qual a diferença entre eles e neste sentido onde se localiza a questão da qualidade da informação?
Ronaldo Ronan Oleto (RRO): Informação é a atribuição de valor ou significado a algo recebido por nossos cinco sentidos. Esse ”algo” normalmente é chamado de dados, ou seja, é o registro, em diversas formas, dos fatos. Quando um dado é recebido por nós e sofre um juízo de valor ou de significado ele vira uma informação. Já o conhecimento é o “uso” dessa informação. O conhecimento adquirido através de uma informação coloca o indivíduo em novo estágio de experiência e de vida.
Já a qualidade da informação é um valor intrínseco, pessoal, subjetivo que reflete a importância da informação. Há tentativas de qualificá-la através de substantivos, muitas vezes chamados de atributos, tais como: acessibilidade, atualização, confiabilidade, exatidão, utilidade e outros. São inúmeros. O difícil é concluir quando uma informação é, por exemplo, exata a ponto de torná-la uma informação de qualidade boa ou, por outro lado, tentar hierarquizar os atributos em função de importância.
LM: O que o levou a escrever o artigo “Percepção da qualidade da informação” e o que você acabou “percebendo após o trabalho de pesquisa e escrita do mesmo?
RRO: O artigo citado é um resumo da minha tese de doutorado defendida na UFMG. O que ficou claro é a falta de “percepção” da qualidade da informação, nos usuários estudados, nos moldes convencionais da teoria. Ou seja, eles usavam a informação como instrumento de trabalho, mas não tinham esse rigor teórico de classificá-la conforme alguns atributos da qualidade da informação. Se estimulados com a citação do atributo faziam digressões sobre ele, mas tudo pautado pelo senso comum, pelo “conceito do dicionário’.
LM: Podemos dizer que a informação é o bem maior de uma sociedade globalizada?
RRO: Sim, podemos dizer que é um bem com certeza. O mundo capitalista chama-a de “ativo”; diz que é um ativo dos mais valorizados nas organizações devendo, portanto, ter a própria política de segurança. Vide a quantidade de dinheiro que se gasta para proteger as informações bancárias e/ou fiscais.
LM: O que é a Ciência da Informação? Com o atual estágio de desenvolvimento da Ciência contemporânea, será que pode haver dúvidas de que a informação é o objeto de estudo da Ciência da Informação?
RRO: A definição do que é Ciência da Informação não é límpida com a da Física, da Química, das Ciências Exatas. Quando cursando o doutorado eu e um colega fizemos uma pesquisa junto a alguns professores e obtivemos respostas de que não sabia ou não havia. Por ser uma área do conhecimento ainda em construção ela não possui definição “fechada”, e talvez não venha a ter, enriquecendo-se a cada nova “descoberta”. É fato que a Ciência da Informação se lança aos estudos e pesquisas sobre a teoria, a organização, a gestão e o tratamento da informação, buscando interpretar a chamada “sociedade da informação” e clareando o conceito de Sistema de Informação que exige a identificação da informação necessária, a sua coleta, a sua classificação, tratamento, apresentação e armazenamento, a sua distribuição e disseminação e o seu uso. Com essa abrangência é natural que se veja a informação como objeto de estudo, também, por exemplo, na Administração (sistemas e processos), na Psicologia (cognição e conhecimento), na Computação (tecnologias e conhecimento).
LM: Em se falando em qualidade de informação, me vem a cabeça a coisa dos blogs. São milhões deles a todo o tempo publicando posts , mas como seria determinar “sem qualidade” Qual sua visão a respetio deste fenômeno?
RRO: Os blogs transmitem informação. A qualidade da informação que eles apresentam é o usuário que determina. Um pode estar interessado em “desinformar” e a informação que ele julga errada é aquela que atende às suas necessidades e, portanto, de qualidade para o seu uso. A maioria deseja o inverso. Nessa disputa entra a informação certa e a errada, a informação com qualidade e sem qualidade, entra a questão da relatividade. A informação só poderá ser qualificada se houver a possibilidade de relacioná-la com algum dado ou informação. Se não houver a possibilidade de qualquer comparação ou relação não se pode adivinhar se a informação é certa ou errada. Se eu ler num blog que a população do Brasil é de 100 milhões de pessoas e em outro de que é 188,5 milhões, somente a partir de uma comparação/relação com outra informação será possível decidir qual a certa, assumindo o atributo confiabilidade importância relevante para essa decisão.
LM: Outra coisa que acabou vindo à cabeça é como os estudantes buscando comodidade e pouco trabalho costumam trocar os livros pela internet em suas pesquisas escolares. Copiar artigos e textos da internet, sem checar muito a origem da informação, é algo relativamente simples de ser feito quando se tem acesso ao PC. Como você vê este fenômeno na prática?
RRO: A busca de trabalho na internet para pesquisas escolares poderia chamar de busca de dados. Se esses dados são repassados diretamente para o papel a ser entregue ao professor eles não se tornaram uma informação e nem geraram um conhecimento. Ou seja, o aluno perdeu seu tempo em busca de nota (pontuação) sem o correspondente aumento do conhecimento. Enganou a si próprio. Quando ele, por outro lado, busca um texto ou artigo (dado) na internet, estuda-o e incorpora-o, consciente, ao seu trabalho escolar ele obteve informação relevante e aumentou o seu conhecimento. Cresceu pessoal e intelectualmente.
LM: Se por um lado há a questão prática, há tambem um certo “endeusamento” das novas tecnologias. Digo isso poque certa vez presenciei uma funcionária da limpeza de uma instituição pedindo à algumas pessoas que fizessem uma determinada pesquisa sobre alguns fatos históricos. Deram-lhe a oportunidade de ver na Barsa, mas ela disse que não, que queria da Internet porque na internet é que “tá tudo certo” e não no livro. Como você vê isso?
RRO: É aquela questão da qualidade da informação na percepção individual. Por estar escrito em livro ou na internet não quer dizer que não cabe discussão. Para dirimir a dúvida só a “relativização”, ou seja, a demonstração por fatos e argumentos a respeito de qual versão é mais exata (atributo da qualidade da informação). As dúvidas quanto aos livros são esclarecidas pelos professores e pessoas de notório saber. Já a internet conta a seu favor com os chamados “grupos de discussão” que se espalham para quase toda temática e, assim, permitem contato com argumentos concordantes ou conflitantes da posição que o indivíduo pretende defender. O embasamento dos seus argumentos se dará a partir da comparação/relação. A partir dessa “relativização” o indivíduo terá condições de decidir, a seu juízo, qual informação deve ser tratada como multiplicadora de conhecimento. Se o indivíduo não tiver tamanho juízo para decidir, alguém terá para ele: o professor, o chefe, o notório saber, o amigo, o adversário, ou outro qualquer a quem a informação, e a respectiva construção do conhecimento, venha importar.
Consulte também o artgo ” Percepção da qualidade da informação “
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