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Travestis: rejeição, preconceito, discriminação… Uma vida nada fácil!

Postado por Lote Cultural | August 22, 2008

Por Bruno Rosa e Glauco Faria (Revista Fórum)

 

“Em nenhum momento eu soube que era travesti. Eu sou completamente heterossexual e acho que isso não tem dúvida.” Era assim que o jogador de futebol Ronaldo justificava, no programa Fantástico, da Rede Globo, o fato de ter ido a um motel com três travestis. O foco de discussão da mídia se concentrava justamente na questão do atleta ter supostamente tido relações homossexuais. Uma forma velada de homofobia que escancara um dos segmentos mais excluídos da sociedade brasileira: as transgêneros.
 Embora haja controvérsias sobre o tema, pode-se dizer que, de forma geral, transgêneros são pessoas que não se identificam com o seu sexo biológico. Isso se expressa desde o hábito de usar roupas do gênero oposto, fazer tratamentos hormonais e cirurgias estéticas ou mesmo operações de mudança de sexo. Neste último caso, estariam as transexuais, que rejeitam ou não sentem prazer com seus órgão genitais, enquanto com as travestis isso não necessariamente ocorre.

 O fato é que ambas enfrentam o estranhamento e a intolerância no seu dia-a-dia, sendo muitas vezes discriminadas, até mesmo por homossexuais. “De modo geral, muitas transexuais e travestis são postas para fora de casa pelos seus próprios familiares, por volta dos 13 ou 14 anos. Normalmente, neste período é que começa a busca pela nossa verdadeira identidade sexual”, explica a transexual pernambucana Aleika Barros, vice-campeã do Miss International Queen 2007 e coordenadora da Articulação e Movimento de Transgêneros em Pernambuco (Amotrans-PE). “Este ato de exclusão já contribui bastante para que estas pessoas sintam na pele a intolerância”, garante.

 Estudos e pesquisas vão ao encontro da realidade contada Aleika. É nos dois ambientes mais importantes para crianças e adolescentes, o próprio lar e a escola, que travestis e transexuais sentem pela primeira vez o estigma e a discriminação que em geral as acompanham pelo resto da vida. Com isso, a saída de casa e o precoce contato com a prostituição acabam se tornando algo comum a muitas delas, com o quase simultâneo abandono da vida escolar. De acordo com o estudo Travestis profissionais do sexo: vulnerabilidades a partir de comportamentos sexuais, que coletou dados por meio de entrevistas individuais com 100 travestis profissionais do sexo da cidade de Uberlândia (MG), 53% têm até o ensino fundamental incompleto e nenhuma possuía ensino superior.

 “A baixa escolaridade deste segmento é enorme. E mesmo quem consegue ultrapassar essa barreira, acaba excluída devido ao preconceito”, conta Majorie Marchi, presidente licenciada da Associação de Transgêneros do Rio de Janeiro (Astra-Rio), organização que conta com 1.300 associadas em todo o estado. “A escola é o lugar das primeiras rejeições vividas na infância, mesmo as que não usam trajes, quando emanam um sinal de sexualidade fora dos padrões, acabam saindo, não há o reconhecimento da identidade”, relata ela, que é travesti desde os 13 anos e viveu da prostituição dos 14 aos 28. Atualmente, participa da Câmara Técnica de Elaboração do programa estadual Rio sem Homofobia.

 Majorie tem sido uma das vozes mais ativas do movimento GLBT na contestação ao tratamento que a mídia deu ao caso Ronaldo. Em nota oficial da associação, ela reivindica que “as travestis e transexuais sejam respeitadas na sua identidade de gênero, que é feminina, e que sejam identificadas por seus nomes sociais, e não pelos nomes de registro”. E prossegue: “Infelizmente, a maior parte da mídia não tem observado esse princípio, que faz parte de um direito humano fundamental, preservando a dignidade das pessoas, que têm o direito de ser tratadas como se reconhecem.” Em outra nota, ela protesta contra a apresentadora Ana Maria Braga, que teria dito em uma entrevista com o “Fenômeno”, que ele “deveria dormir mais cedo em vez de se envolver em situações como essa e com esse tipo de gente”.

 “O senso comum não vê a transexualidade como uma visão possível de sexualidade”, aponta a cientista social Larissa Pelucio, pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero da Universidade de Campinas (Pagu/Unicamp). Para ela, a imprensa tem dificuldade em reconhecer a travesti como um tipo de expressão de gênero distinto da caricatura usual que se faz delas. Larissa realizou um trabalho etnográfico com travestis, em especial da cidade de São Carlos (SP), e, segundo ela, um dos pontos mais importantes desse trabalho foi “ver a dimensão humana e as estratégias que elas têm que desenvolver para enfrentar o preconceito”.

Durante o período em que conviveu com travestis, Larissa conta que presenciou não somente as agressões físicas, algo tristemente normal para aquelas que trabalham nas ruas, mas a violência velada, só visível para quem é alvo dela. “São atos como impedir que a travesti entre em algum lugar. É um mal-estar constante. Nem sempre a violência física é o ato mais brutal, mas o riso no supermercado, os olhares na fila do banco, no circular”, observa. “A travesti desafia os catálogos identitários, não é homem, nem mulher, nem gay, segmentos que ainda têm um grau de aceitação maior na sociedade”, analisa o psicólogo Marcos Garcia, autor da tese de doutorado Dragões: gênero, corpo, trabalho e violência na formação da identidade entre travestis de baixa renda.

Ele ressalta a dificuldade que elas enfrentam para sair da condição de profissional do sexo, em especial as que ganham menos. “Uma mulher que trabalha na prostituição, quando envelhece, tem a oportunidade de mudar de profissão e esconder seu passado. Já a travesti tem muito mais dificuldade por conta do estigma”, esclarece. 

 

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