
Ele comanda uma das melhores festas das noites paulistanas e fala em entrevista ao Lote Cultural sobre a balada Autobahn, que há mais de uma década destaca com sucesso os grandes nomes oitentistas, como: Duran Duran, Erasure, Cyndi Lauper, entre outros…
Salo: Fale um pouco sobre sua escolha profissional e o caminho que o levou ao Autobahn:
DJ Marcos Vicente: Na verdade eu já amava anos 80 desde a época, vivia isso, e isso ajuda bastante, comecei a tocar numa casa noturna de São Paulo, depois de tocar em algumas festas de amigos na época. Foi em uma dessas festas, que eu nem imaginava que tinha um dono de casa noturna. Lembro que toquei uma banda que eu adorava mas ainda não fazia sucesso por aqui, toquei a música Bizarre Love Triangle do New Order, mais ou menos em março de 87, já adorava a música, mas o que fazia sucesso por aqui na época era mais Simple Minds, Duran Duran, A-ha. Essa música não era conhecida do público, mas a galera gostou. Depois de uns 3 meses, essa música estava estourando em todas as rádios da cidade. O dono da casa noturna me procurou conversando com alguns amigos e fizemos um contrato, pela iniciativa de tocar algo que ninguém conhecia e ter feeling para músicas que podiam estourar mais tarde. Foi uma revolução na minha vida. Aí comecei a tocar como residente na casa. Depois disso, quando começou a década de 90, o estilo que dominava era o Techno e também estava começando o Grunge. Aí quase todas as casas se adaptaram, a única que ainda resistia era essa casa, e o dono um dia falou que no fim do ano a casa fecharia. Foi aí que surgiu a idéia do Autobahn, uma festa itinerante que pudesse reviver os 80, levando a festa para várias casas diferentes, já que uma casa noturna anos 80, não existiria mais. Começamos a fechar temporadas em cada casa noturna, a primeira foi o Freepass, no Jardins em São Paulo, e estreamos o revival anos 80 no Brasil, naquela noite fria de inverno, em junho de 1993. A partir daí muitas casas foram abrindo espaço e começamos a ficar 6 meses a 1 ano em cada casa, levando a festa inteira, mudando a decoração do local, onde tinha paredes modernas, cobríamos com quadros do New Order, Depeche Mode, Smiths, David Bowie, colocávamos uma TV dos anos 80 junto com um Atari para a galera jogar a noite inteira (até hoje é uma característica da festa, o Atari, 15 anos de festa toda semana com o Atari para jogar).
Salo: O que é o Projeto Autobahn e como é pra você trabalhar nele?
DJ Marcos Vicente: O Autobahn é um projeto audio-visual que nasceu para o público essencialmente, para todo mundo que tinha saudade de dançar as músicas que mais gostavam na Toco, Contramão, Overnight, e rever os filmes, seriados e desenhos da época no telão. A galera se encontra para dançar e fazer grandes amizades como acontecia nas festas dos 80, um público que já sabe o que quer, com bom gosto musical e o melhor, se diverte a noite inteira sem qualquer briga. Isso é a cara da festa anos 80. A pessoa quando entra na casa se desliga completamente do mundo externo, esquece dos chefes, problemas em casa, no trabalho, na escola, no trânsito. A pessoa se desliga de 2008, entra na casa a Hostess vestida como a Madonna, já de cara, pega uns docinhos típicos dos 80 como Dip n Lik, Guarda-chuvinha de chocolate, dadinho, etc. Depois entra na pista só música dos anos 80, olha para os lados quadros do Indiana Jones, A-ha, Cyndi Lauper, Boy George, Guerra nas Estrelas. Sobe no andar de cima tem War, Atari, Imagem & Ação, Detetive, entre vários outros brinquedos para brincar com os amigos, pede um drink típico que tomava na época. Ouve uma música que lembra seu primeiro beijo, ou a primeira vez que foi numa balada, é como uma viagem de volta aos anos 80. Por essa razão que cuidamos de cada detalhe. Algumas amigas falam que o Autobahn é uma terapia, você volta no tempo e lembra de tudo que fez parte da sua vida. Como vise assistisse um filme com a trilha sonora das sua própria vida. Fazer parte de tudo isso. Realmente não tem preço. Não só por mim, mas em ver a alegria em todos que frequentam a festa, mesmo os mais jovens, que não viveram as baladas dos 80, mas que frequentam a festa toda semana, e se empolgam muito, procuram conhecer melhor as bandas, etc.
Salo: A que você atribui esta onda oitentista que se iniciou há alguns anos e ainda parece longe de acabar?
DJ Marcos Vicente: Com certeza à qualidade de produção musical e artística daquela época. As músicas tinham letras, diferente do Techno. Mas tinham letras de verdade, com alguma coisa pra falar, bem diferente do axé, etc. Não dá para comparar uma letra do Titãs ou Capital Inicial, que estourava na época, com É o Tchan e Belo que estouraram anos depois. Com certeza as pessoas estavam com saudade de ouvir músicas de qualidade.
Salo: E a que você atribui o grande sucesso do Projeto Autobahn?
DJ Marcos Vicente: O sucesso da festa, se concentra no bom humor de todo mundo que trabalha na festa, pois é organizada por fãs da época, não alguém que criou uma festa 80’s porque está na moda e vai dar dinheiro, como muita gente faz. No Autobahn as pessoas que organizam tudo são fãs de New Order, Smiths, Madonna, Duran Duran, então elas se empolgam, ficam amigas dos frequentadores, curtem as músicas do mesmo jeito de quem está na pista. Outro fator é a fidelidade aos anos 80. Já sofremos todo tipo de pressão para tocar outros estilos, outras fases e até músicas ruins da década que estavam na moda e davam dinheiro pro dono da casa noturna. Simplesmente saímos e fomos para outra casa. Essa fidelidade ao som do melhor da década, faz os frequentadores respeitarem a festa como um todo.
Salo: O que você tem escutado ultimamente em relação à artistas novos?
DJ Marcos Vicente: Bandas alemãs e britânicas que mantém a evolução natural da música dos anos 80. Tem também o Anything Box, banda dos 90 que tem uma levada bem new romantic e synthpop, Elegant Machinery, Avant Garde, e bandas atuais com influências de Pet Shop Boys, Erasure, New Order, Human League, na Europa têm surgido várias bandas nessa linha, principalmente da Suécia, Inglaterra e Alemanha.
Salo: E dos anos 80? Qual (is) artistas você acha que continuam lançando trabalhos de boa qualidade?
DJ Marcos Vicente: Human League, Erasure, Pet Shop Boys e Madonna
Salo: Qual a coisa mais curiosa que você viu nas noites de trabalho no Projeto Autobahn?
DJ Marcos Vicente: Difícil lembrar só de uma cena, mas com certeza o momento mais ímpar na história das noites em São Paulo, foi quando toda a galera do Human League, logo após o seu primeiro show no Brasil em 2005, entrou na festa, todos muito animados, e o melhor foi colocar o tecladista e o vocalista da banda como DJs convidados, foi uma noite pra lá de inesquecível… quem estava na festa simplesmente teve um êxtase, conhecer de perto os ídolos dos 80, e o melhor poder as suas músicas assim na pista de uma balada, trocar idéias, bater fotos juntos, logo após terem o melhor da noite no Nokia Trends no Anhembi, simplesmente a cena mais interessante da história da noite de SP. Imagens que nunca serão apagadas da mente de cada um que estava lá nessa noite histórica.
Outra situação histórica foi quando aconteceu a copa de bandas no Autobahn. Fizemos uma ‘copa’ de bandas com partidas eliminatórias, por exemplo Cure x Smiths, New Order x Depeche, A-ha x Duran, etc, classificando-se para as próximas fases, etc, mas o mais curioso foi quando jogou RPM x Zero, e claro todo o pessoal estava lá, da cabine de som o Guilherme Isnard (vocalista do Zero) agitava os votos do Zero, e ao meu lado do outro lado da cabine, Ferando Deluqui (guitarrista do RPM), tocando as songs do RPM, foi um momento único, no final o RPM ganhou essa partida e passou pra fase seguinte da copa de bandas, mas o clima e as brincadeiras dos 2 na cabine, incluindo os dois cantando um parabéns a você, no final da festa, foi um momento bem diferente na história da noite de SP! Aliás sempre estão músicos passando pelo Autobahn, Deluqui e Guilherme já batem cartão pela festa, de vez em quando aparecem integrantes do Ultraje, Capital, e internacionais como The Mission e Men Without Hats, espero a sua visita e dos leitores na balada mais animada de São Paulo.