Esta entrevista foi feita em 2003, mas talvez ainda possa ajudar algumas pessoas que tenham este sério problema que é a Síndrome do Pânico. Na época em que foi realizada esta entrevista, Luciana Vaz tinha um site bastante interessante sobre suas experiências pessoais com a Síndrome do Pânico no endereço: www.lucianavaz.hpg.com.br. Hoje, Luciana pode ser vista no endereço: http://www.myspace.com/cantodalu.
Leonardo Melo (LM): Primeiramente, para quem não a conhece, eu gostaria de saber em poucas palavras: Quem é Luciana Vaz?
Luciana Vaz (LVAZ): Tenho 31 anos, moro em Santos, estado de São Paulo. Sou uma pessoa de natureza feliz. Gosto de sonhar, de fazer planos e tentar concretizar. Gosto de experimentar coisas novas. Já tentei jogar xadrez, praticar tiro ao alvo, tocar piano, violão e gaita. Já entrei em vários cursos como: Nutrição, tradutor intérprete, turismo e outros, mas só terminei contabilidade e nunca ingressei na profissão. Não penso que eu seja volúvel. Acho que ninguém sabe exatamente a que veio e “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Embora eu tenha começado muitas coisas e não tenha continuado, todas elas me acrescentarm algo na vida, a começar por muitos amigos e histórias pra contar. Jornalismo eu não parei por opção. Parei por falta de grana mesmo. A minha última experiência tem sido estudar roteiros. Eu gosto de escrever e talvez essa seja minha vocação, ou melhor, um de meus talentos, porque na minha opinião, ninguém tem talento pra fazer uma coisa só na vida. A gente pode ser tudo o que desejar. É só colocar a mão na massa.
Leonardo Melo (LM): Parabéns pelo seu curioso site. O que a motivou a construí-lo?
Luciana Vaz (LVAZ): Eu estava em casa e não podia sair. Precisava de uma ocupação. Adoro computador, internet e também adoro me comunicar. Resolvi me comunicar com quem estava na mesma situação que eu.
Leonardo Melo (LM): Qual a sua definição para a Síndrome do Pânico?
Luciana Vaz (LVAZ): Ainda não estou curada, mas nunca vou deixar de me cuidar. Acho que quando a gente se descuida corre o risco de voltar a ter o problema. É como o alcoolismo: Se vc tomar o primeiro gole já era. No transtorno de pânico se vc perder o controle da ansiedade também já era. Eu acho que todas as doenças de comportamento giram em torno do vício. Vício de beber, vício de comer, vício de se entorpecer, vício de ver as coisas sempre pelo lado negativo, etc. Todo ser humano precisa cuidar da cabeça e não só do corpo ou da alma. Só fazer ginástica ou só viver nos templos é tão prejudicial quanto viver nervosa e preocupada ou tentar ser perfeccionista. Tudo que é exagerado leva a algum problema de comportamento.
Vira neura, portanto, vira doença. Sendo assim todos os humanos e somente os humanos, os pensantes, podem ter infinitos problemas e talvez os mais difíceis de compreender sejam o transtorno de pânico, as fobias sociais, a bulimia, a anorexia. Já o alcoolismo, a dependência química são mais fáceis de compreender. Pelo menos dão um “barato”. Mas é tudo doença exclusiva de seres humanos, racionais, não é? Já viu algum animal, mesmo um rato de laboratório procurando drogas ou com transtorno de pânico? Então o segredo é viver e não só sobreviver ou só querer ser belo ou só querer ir pro céu, quando morrer. O segredo é o equilíbrio e quando este nos falta o corpo responde com falta de serotonina e outras coisinhas. É assim que eu penso.
Leonardo Melo (LM): Muita gente sofre desta doença hoje em dia, qual conselho você daria às pessoas que têm este problema?
Luciana Vaz (LVAZ): Para as pessoas de modo geral buscar equilíbrio, viver mais “desencanado”, procurar a felicidade, mas sem tanta ansiedade. Para quem está num estágio mais avançado não deixar de procurar tratamento médico ou alternativo e seguir o objetivo do tratamento com muita disciplina e fé.
Leonardo Melo (LM): E qual conselho você daria às pessoas que têm parentes ou amigos com Pânico? Como fazer para ajudar?
Luciana Vaz (LVAZ): Nunca achar que é frescura. Procurar entender. A minha mãe leu os mesmos livros que eu lia para entender e poder me tranquilizar. Por mais que a gente se informe, na hora de uma crise não há como raciocinar e se tiver alguém ao nosso lado que possa entender o que está acontecendo é muito mais fácil e menos constrangedor.
Leonardo Melo (LM): Como podemos saber se uma pessoa está apenas triste ou se sofre de Pânico?
Luciana Vaz (LVAZ): Na verdade existem diversos tipos de distúrbios relacionados com a psiquiatria. Há uma enorme diferença entre transtorno de pânico, depressão, agorafobia e muitos outros problemas. Acho que todos deixam os pacientes tristes. Não saberia dizer como distingüir trsiteza de um distúrbio. Só procurando o médico mesmo.
Leonardo Melo (LM): Conte um pouco de sua experiência: Quando foi que você pensou ter chegado ao fundo do poço e quando você decidiu que precisava mudar?
Luciana Vaz (LVAZ): O fundo do poço mesmo foi quando eu não suportei terminar um dia de trabalho. Peguei minha bolsa, entrei num táxi e fui pra casa. No dia seguinte eu não sentia mais nada, porém, enquanto eu tomava banho pra ir trabalhar pensei que não estava certo eu continuar assim e resolvi investigar o problema. Eu já tinha ido ao médico. Tinha feito vários exames que não tinham acusado nada. Mas eu sabia que algo estava errado. Liguei pro trabalho, disse que não ia e fui procurar o médico. No mesmo dia estava no consultório da psicóloga e ouvi o diagnóstico preciso.
Leonardo Melo (LM): Li no seu blog que você foi assistir a um jogo de futebol, como foi?
Luciana Vaz (LVAZ): Foi péssimo. O Santos perdeu e o Robinho não deu uma pedalada. (rs) . Com relação ao transtorno de pânico correu tudo bem. Senti que era um grande desafio, deu um frio na barriga, mas eu me comportei direitinho.
Leonardo Melo (LM): Muito obrigado pela atenção e esteja à vontade para deixar suas considerações finais.
Luciana Vaz (LVAZ): Quando fiz o site percebi que muita gente sofre preconceito. Eu não tive esse problema, mas vejo que é a maior agonia para quem já tem um problema tão difícil pra resolver. Peço aos que estão doentes que pensem apenas em se tratar. Se puderem contar com alguém é sempre melhor, mas se tiver que seguir esse caminho sozinho não perca a coragem. No final vale a pena. A gente sente a emoção de fazer as coisas mais banais como ir num restaurante ou passear no shopping. Só quem sente sabe o que isso significa.
Interessante reler essa entrevista anos depois. Hoje, discordo de mim mesma em alguns pontos. Li em algum lugar que animais podem ter transtornos desse tipo. Mas são animais domésticos, ou seja, convivem com animais ditos racionais. Se um rato de laboratório busca uma droga é pq nós, os racionais, o ensinamos a procurar isso. Eu sofri preconceito, ao contrário do que eu imaginava na época. Só que a síndrome em si tinha uma dimensão tão enorme que eu nem percebia o que havia ao meu redor. O lado positivo foi ignorar o preconceito e não me desgastar com o que não me faria bem. O lado negativo é que negligenciei coisas importantes da minha vida. Hoje eu tento correr atrás do prejuízo. Boa sorte a todos e beijos.