Recordar é viver: a entrevista coletiva de Reginaldo Rossi: lançamento do disco
Postado por Leonardo Salo | October 31, 2008

Outubro de 2003. Reginaldo Rossi lançava o disco “O Melhor do brega”, em um hotel da Zona Sul do Rio. Pois é, em 2003, os artistas ainda faziam coletivas de lançamento!
O cantor Reginaldo Rossi parecia tenso no começo da entrevista coletiva, realizada num hotel em Copacabana, Rio de Janeiro. Entretanto, entre um gole e outro de café, o Rei do Brega foi aos poucos se soltando e no final já estava brincando e contando piadas, assim como estamos acostumados a vê-lo na TV. O cantor é sinônimo de sucesso e perseverança, pois continua a manter seu estilo que é garantia de sucesso nas camadas populares da população. Confira abaixo, alguns trechos da coletiva:
O NOVO CD
Reginaldo Rossi: Eu estou numa felicidade tão grande com esse cd… Porque eu queria fazer este disco há 10 anos e nunca podia fazer. Agora que eu saí da Sony para a Indie, eu disse: “vamos fazer um disco assim”. Então eles ditaram algumas coisas e eu ditei outras. Eu sempre quis cantar as músicas que o povo gosta de cantar. Nos shows, quando eu sentia que o clima estava caindo, eu cantava um sucesso: “seu guarda eu não sou vagabundo…” , então todo mundo cantava, eu animava o povo… Então eu fui pensando em várias músicas e pensei em fazer um disco melhor ainda. Na verdade, eu queria que este disco se chamasse “Músicas que o Povo Gosta de Cantar”, mas acabou saindo “O Melhor do Brega”. Eu pensei: já que era pra cantar as músicas que o povo canta agora, por que não cantar as músicas que o povo cantava há 5 anos atrás, como “Entre Tapas e Beijos”? E por que não cantar o que se cantava há 10 anos (Fogo e Paixão), há 20 anos ( Sorria, Sorria), há 40 anos (Oh! Carol)? Eu também fiz questão de gravar “Eu Não Sou Cachorro Não”. Este disco foi gravado ao vivo numa casa chamada Eucaliptus, em São Paulo e eu sou muito melhor ao vivo do que no estúdio. Este disco já saiu com mais de 100 mil cópias vendidas.
A RELAÇÃO COM AS GRAVADORAS
Reginaldo Rossi: Alguém pode ter medo de falar, mas eu não tenho. Até porque isso é um fato. Quem sustentava a EMI era o Agnaldo Timóteo, o Reginaldo Rossi, o José Augusto e outros. A gente não tinha coquetel de lançamento, não tinha nada. Há uma parte de artistas que fazem MPB que vendem muito pouco. O dinheiro arrecadado por nós, os bregas, ia pra estas pessoas. Vocês iam para o coquetel de Fulano de Tal, que vendia 3000 discos, enquanto nós vendíamos 300 000. “Garçom” vendeu 270 mil discos em 1986 e eu não tive o sudeste. Em 1995 a EMI relançou o “Garçom” e vendeu 400.000. Foi a música mais tocada no Brasil em 1999. INDIE Tá me dando um bom apoio. a Sony me dava um bom apoio, mas eu já tinha 8 anos lá e numa multinacional é muito difícil você conseguir falar com o dono. Na Indie eu falo com o dono.Quando eu lancei “A Raposa e as Uvas” em 1982, eu disse: “Esta música vende um milhão de discos.” eu era da EMI e ela não me trazia para o Sudeste. Eu gravei 10 discos na EMI e ganhei 10 discos de ouro consecutivos.
MON AMOUR, MEU BEM, MA FEMME
Reginaldo Rossi: “Nesse corpo meigo e tão pequeno, há uma espécie de veneno bem gostoso de provar.” A palavra meigo é muito comum para nós que estudamos um pouco, mas para o povão meigo não é tão comum assim. O povo canta: “Nesse corpo negro e tão pequeno”. Eu já a gravei várias vezes e essa música tem 52 regravações. Em 1972 foi a música mais tocada no Brasil. Ela já foi regravada por vários nomes de peso… Há dois anos atrás, eu estava num aeroporto e encontrei a Cássia Eller. Ela chegou para mim e disse: “Rossi, eu vou gravar Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme”. Ela não teve tempo de regravar, mas a Gil da Banda Beijo gravou. Possívelmente ela seja mais forte do que o Garçom, isso é supreendente.
O ROCK
Reginaldo Rossi: Pra mim eu ainda canto rock. O rock não entrou tão violento no brasil, quando começou a chegar o rock, Elvis já cantava baladas. O grande sucesso aqui era Diana. Era uma coisa romântica. Por outro lado, você tinha os Beatles quadradinho… Porque Beatles é quadrado, é brega total.Tanto que o sucesso dos Rolling Stones é justamente por serem os “anti-Beatles”. Enquanto Beatles entrava todo arrumadinho, cantando “All You Need Is Love”, tinha o Animals, que eram mais feios do que os Rolling Stones. E além de feios eles faziam caretas, para ficarem mais feios ainda… Então o que eu canto hoje é o que era rock para mim no passado. Quando Roberto Carlos começou, a gente fazia muitas versões de músicas americanas, isso era o rock, depois disseram que era iê-iê-iê e agora estão chamando de brega.
O REI ROBERTO CARLOS
Reginaldo Rossi: O Roberto tem uma generosidade tão grande… Eu me dou muito bem com ele. Quando uma vez Jonh Lenon disse que era mais conhecido do que Jesus Cristo, algumas pessoas não entenderam, mas o povo não sabe que na China há 2 bilhões de pessoas que não conhecem Jesus Cristo e conheciam Beatles. No Brasil, a onda era o Roberto Carlos. Quando eu vim para a jovem guarda em 1965 ou 1966, a cada 15 palavras que as pessoas falavam no Brasil, 8 eram o nome do Roberto Carlos. Em São Paulo, em cada esquina que virava, você dava de cara com um pôster do Roberto Carlos… Na volta dele agora, eu fui ao show que ele fez no Recife.Quando terminou o show, ele me chamou no camarim para conversar e eu tinha que ir para Manaus, mas como é que eu vou dizer não para o rei? Eu tive que pedir a alguém que falasse para ele que eu ia para Manaus…
O BREGA
Reginaldo Rossi: Quem não bregar, tá morto, quem não brega não vende discos! A Marisa Monte ficou conhecida no Brasil todo com “Amor, I Love You”. Se você for a lugares remotos do Brasil, você vai falar de artistas que eles nunca ouviram falar. Quem não bregar não vende, o povão é bem maior do que a elite e a garotada de hoje é menos hipócrita do que antes, eles vão ao forró, eles dançam…
O CORNO
Reginaldo Rossi: Depois do Rossi, as pessoas falam mais corno, chifre; hoje é o que mais se fala na televisão. Já tem o bar do corno, o dia do corno, já tem tudo… O nome corno perdeu aquele peso que tinha. Há 20 anos atrás no Nordeste, quem chamasse o outro de corno estava se arriscando a levar uma facada. Hoje todo mundo brinca com essa coisa…
Post classificado na(s) categoria(s): Entrevistas, by SALO |
PUBLICIDADE:














